Carta aberta às mulheres fora do padrão

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     Eu gostaria de iniciar esse texto relatando que sempre tive uma vida ótima e que o amor próprio sempre foi algo que tive. Mas eu estaria sendo desonesta comigo e com todas vocês. Antes de conhecer o feminismo, a minha vida tinha o gosto amargo da derrota. Eu carregava comigo a dor de nunca ter conseguido ser algo importantíssimo e urgente para a sociedade: magra.
     A minha adolescência foi um show de horrores. A primeira foto que tirei minha foi aos 15 anos, antes disso só tinha fotos das bandas que eu gostava no meu Orkut. O problema é que eu era uma menina gorda, de cabelos cacheados e de feições diferentes das modelos que a gente via nas revistas. Lembro, sentindo ainda todas as dores da menina que eu era, de ter gostado do primeiro rapaz na vida, e ele ter falado que não me queria porque eu era gorda, e no quanto isso destruiu boa parte da minha autoconfiança. A partir disso, passei a adolescência INTEIRA me sentindo inferior a todo mundo. Achava um crime me interessar por alguém, afinal, como ele ia me querer sendo gorda? Tentei todas as dietas do mundo (todas falidas), tentei usar roupas que cobrissem meu corpo, tentei usar de arrogância pra me livrar das cobranças alheias. Tudo em vão. Me ver no espelho todos os dias era a pior coisa que podia me acontecer. Eu tinha tanto medo de não ser aceita que só perdi a virgindade aos 21 anos, mesmo assim, coberta de medo e vergonha de ser quem eu era.

     Vivi enclausurada, me escondendo em uma acidez ridícula e suicida demonstrada em redes sociais, até que, em um certo dia, uma amiga postou no Facebook um texto sobre o feminismo e a desconstrução dos padrões de beleza impostos pela sociedade. O texto falava sobre a indústria da moda e dos cosméticos, e no quanto elas se aproveitavam da nossa baixa autoestima para lucrar. Afinal, se você é gorda pode emagrecer, se você é magra pode engordar, existem truques de roupas pra te deixar mais alta, você pode esconder as espinhas com base, existem produtos que alisam seu cabelo crespo e sapatilhas lindas que escondem seus dedos do pé que são assimétricos.
     Mas – pensei eu – como assim o feminismo lutava contra isso? O feminismo não eram aquelas mulheres que saiam nuas e com os cabelos das axilas grandes na rua? Aquelas frustradas que odeiam homens? E, como boa curiosa que sempre fui, fui pesquisar sobre a história do feminismo. Mulheres como Frida Kahlo, Simone de Beauvoir, Anayde Beiriz e tantos outros exemplos de força. As pautas pelo fim da violência contra nós (e aqui abro um adendo que violência não é apenas física, mas também moral), pela equidade salarial, pela liberdade. Senti vergonha de, um dia, ter julgado esse movimento como algo desnecessário. E, aos poucos, fui desconstruindo muita coisa na minha cabeça.
     Conheci, então, o conceito de moda Plus Size. Como assim eu posso vestir uma saia curta? Como assim eu posso usar uma camiseta regata e mostrar meus braços grossos? Como assim essa mulher está linda de cropped pesando 120kg? “Ah, se elas podem, eu também posso”. Roubei uma saia da minha mãe e vesti. Passei duas horas em frente ao espelho vendo minhas pernas roliças dentro de uma saia tubinho preta, e na minha cabeça tinha um milhão de pensamentos negativos. Mas pensei naquelas mulheres plus size da internet e no quanto eu as achava bonitas. Foi aí que eu tive a primeira noção do que é representatividade e do quanto esse conceito é importante na vida das pessoas que não estão nem perto do padrão imposto. Lembrei da Tess Holliday e no quanto eu a achava linda mesmo tendo o dobro do meu peso. Saí com a saia. Recebi muitos elogios e, quando cheguei em casa, me olhei no espelho de novo: eu estava linda, poxa. Mas por que eu precisei que alguém me dissesse isso pra poder acreditar? A resposta é simples: porque um dia me disseram que eu era feia e que ninguém nunca iria me amar e eu acreditei nisso também, tomando – erroneamente –  como verdade absoluta.
     O que eu quero contando todo o meu relato pessoal é que nenhuma de vocês passe pelo que eu passei antes da aceitação e do amor próprio. Que vocês entendam que aquelas mulheres lindas nas revistas são lindas sim, mas nem elas têm aquele padrão: é photoshop. As pessoas têm poros, as pessoas têm estrias, as pessoas têm celulite, as pessoas engordam quando engravidam ou porque comem muito mesmo, e sim, está tudo bem. Você deve tentar se sentir bem sim, mas não deve deixar isso virar uma obsessão. Se você se sente bem em uma vida fitness, viva uma vida fitness. Se você se sente bem tomando aquela cerveja no fim de semana e comendo hambúrgueres algumas vezes na semana, o faça. Não deixe que ninguém te critique usando sua saúde como desculpa. Recomendo que cuide dela, mas ser magro nunca foi sinônimo de saúde, e da sua vida você faz o que quiser. Não caia na cilada de que “essa roupa não é pra você” e nem dê confiança praquele boy que diz: “gostei muito de você, mas gostaria mais se você emagrecesse/engordasse uns quilinhos”. Você não precisa disso. Você é linda, é inteligente e vê o mundo de uma forma tão bela que as energias boas que você transmite um dia trarão uma pessoa que pense num mundo tão belo quanto o seu. Enquanto isso estude, saia com as amigas, trabalhe, leia, se divirta, assista suas séries favoritas, ouça músicas boas, caminhe, faça yoga, compre roupas que te deixem linda. A vida não é uma eterna espera pelo amor, esse também é outro mito que o capitalismo nos vende.
     A melhor coisa da vida é estar de bem com o espelho. E estar bem com o espelho é mais uma construção social que de real aparência. Após ler esse texto, vá ao espelho e olhe a pessoa maravilhosa que tem nele. Olhos que veem o melhor das pessoas, nariz que sente o cheiro daquela comida deliciosa que a mãe faz no domingo, boca que beija as pessoas que ama. Um corpo que te leva pra passear, que aguenta umas doses de birinights sem te deixar na mão, que recebe visitas de pessoas especiais e te proporciona muito prazer com essas visitas. Agora me responde: o que ele tem de feio, na verdade?
     Despeço-me desejando muito amor próprio e deixando a frase mais icônica escrita por Antoine de Saint-Exupéry, em “O Pequeno Príncipe”: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.”.


Muita felicidade, sororidade, representatividade.
Da irmã,
Priscilla Araújo.



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4 comentários:

  1. Texto maravilhoso, provocativo e libertador. Parabéns, Priscila, e vida longa ao blog!

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    1. Muito obrigada, Aline! O texto da Priscilla é maravilhoso <3 Se quiser participar só enviar e-mail com teu texto para xitgirlsxx@gmail.com com uma foto e um textinho pra perfil! Qualquer assunto é válido!

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  2. Que texto maravilhoso! Parabéns! <3

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